19-02-2014 - TecnovaPA_2014_MarioRamos

A ALDEIA GLOBAL NA ERA DA INTOLERÂNCIA

audiencia pub. na camara a pedido do ver.carlos bordalo ass: discutir descumprimento do tempo maximo de permanencia de usuarios nas filas.

Imerso no terrorismo, o velho continente não tem tido tempo para chorar as suas dores. França, Turquia, e ontem ao final de tarde a Alemanha mal conseguem levantar a cabeça. É a vitória da intolerância sobre a civilização. Na economia, a auto referência também faz fraturas. O Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) fez um ponto de inflexão na trajetória histórica de se criar os “Estados Unidos da Europa”- para lembrar o sonho e a famosa frase de Winston Churchill. A aldeia global se arranha toda na era da Intolerância. Alguém tem princípios? Pois que o diga como o escritor Milan Kundera: “ …tenho princípios, sou um homem cheio de princípios. Se você não gostar destes, tenho outros”!

 

Dinheiro fácil e farto não é a solução para o imbroglio da União Europeia como quer o BCE (Banco Central Europeu). Ao contrário, a opção por uma política monetária frouxa apenas alimentaria ainda mais o Leviatã que hoje faz o pesadelo dos europeus. As derrocadas da Grécia e da Itália foram apenas o “primo piatto”. O Brexit foi o segundo. O terrorismo explodiu o restaurante! O Leviatã europeu quer comer vorazmente mais e mais. E o presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi continua falando em “estímulos”. Chega a ser comovente a luta de alguns colegas economistas para continuar vivendo num mundo mecânico: baixar os juros, desvalorizar a moeda e aumentar o crédito acreditando que assim, numtcahn, todos voltamos a crescer.  É melhor chamar o pessoal da engenharia mecânica! Na aldeia global não é razoável ignorar a geopolítica e o tribalismo que emociona as multidões, e ergue monumentos para os falsos profetas. O mundo global está encarcerado numa guerra de clãs.  Todo mundo andando com o bumbum na parede.

Passa-se de um problema para o outro sem que se tenha resolvido o anterior.  A elevada sensibilidade ao risco dos PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) já encontrou o novo pato: a Espanha já está pagando mais caro para captar recursos financeiros dentro e fora da Eurozona. O custo para “rolar” os seus títulos de dívida soberana já ultrapassa os 7,5% de juros anualizados – em outubro do ano passado a Espanha pagava cerca de 4%. E quem garante que esta será a última pedra do dominó?

A cura da Eurozona (ainda uma união monetária) começa pelo conserto da União Européia (supostamente uma união política). Mas o que deve preceder uma união monetária? Seguramente uma união política, não? Mas não é exatamente isso que dizem ser a União Europeia? Sim, è vero, ma non troppo: é uma união sem âncoras e com absoluta anomia institucional. Onde está a união fiscal? Pode um estado politicamente organizado não ter regras fiscais comuns? Deve a União Europeia ser uma federação? Ninguém sabe o que dizer. Dizem que se o referendo do Reino Unido fosse refeito o Brexit não passaria porque agora sim, agora se tem mais informações.

No coração da União Europeia reside um óbvio desacerto: os gestores que tomam as decisões econômicas e políticas pela União são líderes cuja “responsabilidade de prestação de contas” (“accountabilty”) deriva exclusivamente dos seus eleitorados nacionais. A maioria não tem mandato para trabalhar pelo “bem comum de todos os europeus”. A Comissão Europeia (CE) não tem poderes para tanto. A sua força é condicional e contingente. Praticamente a Comissão só tem “lawenforcements” sobre áreas como o comércio e a política de fortalecimento da competitividade. O Banco Central Europeu (BCE) é de fato uma instituição federal, mas o seu escopo de atuação é bastante limitado. E mais, no campo fiscal e nas políticas bancárias- que são cruciais para o sucesso de qualquer união monetária – não existem nenhuma forma de “poder executivo europeu”.

Mas a “razão técnica” pode plantar os fundamentos de uma nova União Europeia? Obviamente ela integra o menu das medidas certas. Mas, ao contrário dos discursos ufanistas do parlamento italiano, a razão técnica desgarrada da orquestração política pode ser a pedra de tropeço no caminho das reformas institucionais.

Uma Europa mais federal não é tarefa simples. A criação da Eurozona foi um ato de açodamento. Precisamos de tempo e inteligência e maturidade. Não há entendimento na “Aldeia Global na Era da Intolerância”.

 

Mário Ramos Ribeiro, doutor em economia pela USP, docente da UFPA, é consultor em Finanças Empresariais. E-mail: mramosribeiro@uol.com.br

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